Cimarrón: memórias de um escravo fugitivo


A obra de Miguel Barnet além de nos oferecer um relato, na voz de um ex-escravo cubano antes da República, nos mostra como as diferentes nações africanas se adaptavam a nova realidade da escravidão. A obra traz valiosas informações sobre os diferentes grupos que formavam o povo bantu na ilha de Cuba, bem como também foi relevante a sua presença na própria formação da história do povo cubano. Além disso, descreve como os ‘novos cubanos’ foram se organizando para conseguir sua independência da Espanha.Entendo que é possível efetuarmos uma aproximação desta com algumas obras escritas no Brasil, na busca do ethos brasileiro, pois segundo Antônio Cândido entre os anos 1930 e 1940 foram escritas três obras fundamentais que estimularam a formação do pensamento brasileiro daquela época, assim temos Casa-Grande e Senzala (1933) de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda e Formação do Brasil Contemporâneo (1942) de Caio Prado Júnior.

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A primeira, uma narrativa da vida na colônia, a organização social nas fazendas, um relato pessoal e descritivo do caráter de um povo em formação, recebeu críticas desde uma perspectiva marxista. A segunda, um ensaio histórico e sociológico, sendo uma interpretação do processo de formação do povo brasileiro e a terceira que desde uma visão marxista trata da relação entre Portugal e a colônia.

Em Memórias de um cimarrón é mais profundo. Encontramos duas narrativas uma que mostra as negociações, contradições, traições, os linguagem mestiça utilizada, descrição e utilização das plantas, os modos de sobrevivência tanto na mata, nos engenhos e na cidade, as superstições referente às comidas e bebidas algumas vezes proibidas pelos amos ou a igreja, o sincretismo religioso em formação, o universo dos chineses que participaram neste caldeirão cultural e étnico, as doenças como o cólera, os filhos e as parteiras nos barracões, o racismo, a anarquia, os enterros dos negros, a maçonaria, os jogos de dominó, baralho, rifas e boliche; como Estebam Montejo formou parte do Partido Socialista Popular e a briga entre a igreja e os comunistas, a guerra de independência, o surgimento dos lideres que depois se tornariam heróis.

E a outra que expõe uma etnografia cheia de complexidade e ao mesmo tempo dentro da simplicidade do narrador, como também uma semiótica da cultura do povo cubano rica em signos, sentidos e imagens. A partir da mídia primaria que é o corpo, chamada pelo Michel Foucault ou Merlau Ponty de “corporeidade” podemos sentir sua voz, suor, cheiro, movimento, gesto, sombra. Estamos falando de uma possibilidade sincrônica de vínculos e mediação em uma sociedade em gestação.

Todo o aprendizado e seu lado cognitivo da personagem se realizam em uma relação entre ‘seu eu interior’ e seu mundo ou entorno. E uma obra que parte de um sujeito que comparte seu universo simbólico generosamente sem censura.
O titulo Cimarrón também foi utilizado pela escritora norte-americana Edna Ferber em uma novela com o título de Cimarron Chronicles que deu origem ao filme Cimarron (1930) de Wesley Ruggles; o primeiro Western a ganhar um prêmio Oscar em 1931.

Em Memórias de um cimarrón é possível entender como foi constituído o perfil do povo cubano a sua maneira de pensar e seu comportamento. A polifonia de povos que participaram da formação étnica do povo cubano desde uma perspectiva africana, na voz de Esteban Montejo.

Dr. Edwin Pitre-Vásquez
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