Pequenas revoluções

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A cidade não é o personagem central ou um mero pretexto para se falar de nossa condição errática e desfigurada neste livro de estreia de Sandra Ciccone Ginez, recurso que vem se tornando corriqueiro na poesia brasileira contemporânea. Ao contrário dessa tendência, o que se tem aqui é um diálogo muito delicado, e fértil em sutilezas, tramado com cenas e personagens urbanos a partir da sensibilidade escancarada da autora.

A inversão é interessante, pois há uma voz poética que perscruta as contradições e as misérias do cotidiano, que trafega por avenidas e percebe que os cruzamentos guardam mais revelações de nossa humanidade perdida do que se poderia supor na pressa da mudança de cores no semáforo. Sandra não quer inventariar violências, mas as introjeta como um café amargo, tomado numa tarde efêmera de outono, quando as cores do céu se confundem com as luzes fantasmagóricas de letreiros, postes e fachadas.

A cidade vai se revelando, tímida ou cruel, nos apontamentos da poeta, nos “ruídos líquidos”, no “pensamento aterrado nos vazios”, no “ar com prazo expirado”, “nos corredores ascéticos”, ou nos “respingos de um mergulho-rio reproduzido na impressora”. As imagens refluem desse rio interior, profundo, que vai cortando o leito da vida e acumulando dejetos, visões, frases perdidas, lembranças e medos, que, tocados por um modo novo de olhar, podem causar pequenas e irreversíveis mudanças em qualquer um de nós, leitores.

O lirismo foi acossado por muitos métodos ao longo do século XX a ponto de se transformar numa aberração. Nomear o “eu” pode parecer um exercício retórico, ou mesmo um gesto saudosista, sem eficácia num mundo de dissecações neurológicas e de planejamentos estratégicos. No entanto, os poemas de Sandra insistem em expor uma voz singular, que indaga, que protesta discretamente, que registra uma inquietação solitária, mas contagiante. Sem medo ou pudor, a autora deixa claro o que sente sobre os caminhos que nos são impostos, sobre as condições que nos tornam insensíveis à dor alheia, ao isolamento, à perda de sentido das relações pessoais, do respeito à humanidade e à natureza.

As pequenas revoluções de que tratam os poemas deste livro nascem de uma angústia com os grandes planos, uma espécie de obsessão doentia que acomete os poetas. Para estes, há sempre um rumo inesperado a seguir, uma realidade diversa a explorar, uma palavra a guinar a trajetória do verso e da existência. E o poema se constrói a partir desse choque da sensibilidade aguçada do poeta com o real e com o outro, contaminando o espaço público.

Sandra enfrentou com ousadia o desafio do primeiro livro, abrindo sua intimidade para o estranhamento do presente, sem cair na denúncia e no documental, mas acolhendo em seus poemas os fragmentos de uma história feita de subjetividades conflitivas.

 

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